domingo, 23 de fevereiro de 2014

Dissecando os "justiceiros"

A nova polêmica (uma das novas) do momento são os justiceiros, aqueles que resolveram com suas próprias mãos fazer aquilo que o estado não faz: combater o crime. Que bonito, não é mesmo?

Quem recentemente se envolveu na polêmica foi a jornalista Raquel Sheherazade: aquela que a nível de nome complicado, só perde para Friedrich Nietzsche e, a nível de encrenca, só perde para mim. Hehehe ....

Raquel deu uma declaração que, em rede nacional, seria como se jogar do precipício esperando que as pessoas aparassem.

Eu até gostaria de concordar com a Raquel, mas não posso. Na verdade, o ideal seria se o contexto me desse subsídios para concordar. Mas em busca do compromisso com a realidade, não dá para concordar com uma declaração encharcada de individualismo.

Pelos meus 28 anos de vida, me arrisco a dizer que pelo menos 60% dos justiceiros dão motivos para serem amarrados no poste também. A final, estamos num país hipócrita, em que ladrão rouba ladrão e ainda tira onda de correto. Alguém já amarrou no poste um universitário que cobra para fazer monografias? Já amarrou aquele dentista que vende notas fiscais para quem quer sonegar imposto de renda? Já amarrou aquele professor que dá 20 minutos de aula e cai fora? Já amarrou aquele médico que “trabalha” 200 horas por semana? E aquele seu brother que fraudou o concurso da prefeitura pra você passar? Será que Raquel defende que esses sejam amarrados no poste também, ou amarrados em cima do formigueiro?

No entanto, é claro que um assunto como esse, jogado nas redes sociais, ganha todos os adereços e coloridos possíveis, típicos da nova “era glacial”, em que o discurso politicamente correto é sempre o melhor. Nesse sentido, chovem aqueles discursos míopes e raivosos. Alguns levam a discussão completamente para a questão do racismo, de tal forma que fica parecendo que viram um negro na rua e foram lá amarrar o cara. O racismo pode ser um agravante, mas acredito que a essência do problema está na construção de valores a respeito dos crimes, uma construção que perpassa pela nossa cultura individualista. Existe conflito de classes também, mas não é algo maniqueísta, em que o sujeito de classe média quer deliberadamente botar pra lascar em cima do pobre. Esse conflito está nas estrelinhas. Se alguém de classe média resolver praticar assalto a mão armada, provavelmente será tratado de forma bastante parecida com o tratamento que se dá ao pobre. Da mesma forma, se um pobre bater o ponto e cair fora do trabalho, também será tratado de forma parecida como alguém de classe média. É uma construção que resulta na divisão entre: crimes toleráveis e intoleráveis.

Mas a final, o que é o crime inescrupuloso? O crime inescrupuloso é aquele que perturba a ordem da sociedade, que causa transtorno de forma direta. Cheguei em casa, fui usar meu computador e ele não estava lá. Descubro que fui roubado, fico puto e quero matar o cara. Esse computador pode ter sido comprado com dinheiro sujo, pode ter sido dinheiro de suborno por exemplo, mas e dai? Suborno não causa transtorno, não é mesmo? Suborno não deixa ninguém puto, com medo, desesperado, apreensivo, etc. O crime só é inescrupuloso a partir do momento em que alguém é afetado de forma direta. Por isso que quando alguém desvia dinheiro público, a revolta de cada pessoa é menor, pois ela não sofreu transtorno diretamente, mas sim de forma indireta. Inclusive o pobre reproduz isso da mesma forma. Se me assaltarem, quero meter a porrada, mas se fizerem gato de energia na minha rua, eu nada faço. Acredito que esse é o ponto X da questão.

E onde está a causa disso? A causa está no individualismo de nossa sociedade, que costuma analisar em primeiro plano o lado individual e, depois, se der tempo, o lado social. Quando eu recebo suborno de alguém, naquele momento ninguém se sentiu afetado, então eu ignoro todo o “efeito borboleta” que isso irá causar. O professor dá 20 minutos de aula e cai fora justamente porque os alunos não se sentem afetados, em sua maioria. Ninguém lembra que isso representa uma desonestidade.

Dessa forma, quando as pessoas veem os crimes sendo cometidos, elas se colocam no lugar da vítima, fazendo julgamento a partir disso. Essa é a causa da ação dos justiceiros. Eles não combatem o crime, querem apenas manter a ordem social. “Foi fulano, mas poderia ter sido eu sendo assaltado”. Imbuídos desse pensamento individualista, as pessoas promovem a auto proteção, com a faixada da “Justiça do cidadão comum”.


Os justiceiros estão completamente errados. Mas você acha que não reproduz esses valores no cotidiano também? Acha que eu e você estamos livres disso só porque não metemos a porrada num batedor de carteira? Até que ponto você confunde justiça com auto proteção? Pense nisso ...  

domingo, 19 de janeiro de 2014

O tribunal artístico: O processo de hierarquização da música


Volto a escrever sobre esse tema, com a finalidade de esclarecer de uma vez por todas, porque a hierarquização artística sempre é necessária.

Recentemente a discussão a respeito do preconceito musical/artístico foi acalorada pela estudante que escreveu uma dissertação sobre o funk. Não li o trabalho, mas li uma entrevista com a autora. Pelo visto o trabalho tenta mostrar o funk de outra forma, uma espécie de defesa de que o funk só é considerado música ruim por conta do preconceito. Isso divide opiniões no meio acadêmico e musical e, o debate observado é bastante tendencioso e sem consistência. Mostrarei porque a hierarquização artística é necessária e inexorável. Tentarei ser o mais objetivo possível.

Um questionamento (que a princípio parece ser “matador”) de quem escuta músicas tidas como ruins, é alegarem que: “Se tal música representa uma grande quantidade de pessoas, o que faz dessa música algo de qualidade ruim?” Esse deve ser o questionamento mais usado para quem escuta arrocha por exemplo. Pois bem ... na verdade, a qualidade artística é definida através do que cientificamente se entende como “conflito simbólico”. Os conflitos simbólicos dos agentes sociais irão definir o que é “boa arte” e “arte ruim”. Isso acontece através de uma análise estética da obra. Nesse conflito, os poderes são distintos. Um especialista tem poder simbólico maior do que um sujeito qualquer. Isso acontece porque o especialista tem maior legitimidade no meio. Isso existe não só na música, mas em todos os tipos de arte. Em matéria de arte, a voz do povo não é a voz de Deus. Isso é um absurdo? Não!

Se a voz do povo fosse a voz de Deus, possivelmente todos os filmes de Van Damme ganhariam importantes premiações, e isso seria uma injustiça artística. No cinema, o poder de consagração é bastante concentrado, as premiações são definidas pela votação de especialistas. Na música o processo é mais fluido, as premiações não tem tanto impacto e, nem sempre são definidas por especialistas. Mas ainda assim, existe um processo de consagração, que se dá através das opiniões emitidas por especialistas e músicos principalmente. Programas de TV, revistas, opinião da crítica, academia, etc, são meios de consagração. Nesse conflito, o “povo” também participa, mas os poderes também são bastante distintos. Obviamente, um intelectual tem maior poder simbólico do que um sujeito analfabeto. É através de todo esse processo que os valores simbólicos são definidos, valores que estão em constante mutação. Nesse sentido, fazer afirmações que levam a crer que funk e arrocha são tratados como a escória da música por puro preconceito, são colocações levianas e injustas. Ainda que sejam músicas que representam uma grande quantidade de pessoas, essas pessoas (em sua maioria) tem pouco poder no conflito simbólico, pois não são especialistas, nem possuem nível de instrução legitimado.

Tudo que disse anteriormente pode parecer escroto, mas quando estabelecemos comparação com outros tipos de arte, fica mais fácil notar que não. Imagine se a voz do povo fosse muito “escutada” na literatura. Possivelmente 50 Tons de Cinza seria considerada uma obra de arte suprema, correto? O livro vendeu mais do que água no deserto, mas isso não quer dizer que dentro da crítica literária, seja tratado como uma grande obra. Na música é a mesma coisa, se o volume de vendas (que de certa forma ilustra a vontade do povo) fosse parâmetro, Pablo seria um artista supremo e Yamandu Costa seria um zé ruela.

É uma falácia também a afirmação de que o preconceito de classe e de cor tem um peso enorme no processo de legitimação. Recentemente vimos que as chamadas “Bandas Coloridas” foram achincalhadas, mesmo sendo um estilo de brancos de classe média. O sertanejo universitário está longe de ser música da periferia, e ainda assim não tem prestígio na crítica. Existem inclusive severos questionamentos dentre pessoas influentes na música, em relação à Bossa Nova ter posição tão privilegiada no campo musical brasileiro. Os preconceitos existem, mas não são tão decisivos quanto se pensa.

Qualidade artística é algo que está no campo da subjetividade total, mas é necessário que os especialistas tenham poder simbólico maior de consagração, ainda que eles carreguem valores preconceituosos diluídos em seus posicionamentos. É melhor assim do que esperar que o mercado por si só defina o que presta e o que não presta. É por conta do conflito simbólico desigual que eu posso vender 10 mil CDs e ter maior prestígio do que alguém que vendeu 500 mil. Sendo mais claro, é por conta disso que Yamandu Costa não é injustiçado, mesmo não sendo rico, pois ele busca enriquecimento simbólico, e não econômico. Enquanto isso existir, está garantido que ele não dará um tiro na cabeça por ser um dos maiores violonistas do país e do mundo.

Qualidade musical existe, mas não devemos sentir vergonha por gostar de arte considerada vulgar. Devemos apenas saber reconhecer, separar o que é supremo do que é banal ... 

sábado, 19 de outubro de 2013

A hierarquização do mundo animal

Sempre que surge algum assunto polêmico me sinto estimulado a escrever nessa página, sobretudo quando tenho uma opinião diferente da maioria. No momento os noticiários estampam a notícia sobre os protestos em relação às empresas da área farmacêutica que realizam testes em animais. O show de hipocrisia foi lançado.

Primeiramente é necessário destacar que o uso de cães em pesquisas da área é permitido e regulamentado, portanto os protestos só cabem se houver transgressão dessas normas. Na verdade, teoricamente este está sendo o motivo do protesto. Teoricamente. Na prática a gente sabe que a maioria está protestando (de forma presencial ou no facebook) porque trata-se de cães e, a galera não quer ver um cão sofrer.

As pessoas inconscientemente reproduzem valores puramente culturais com o bonito slogan de “proteção dos animais”. Será mesmo proteção dos animais? Ou será uma proposta de hierarquização dos mesmos, involuntariamente imbuída de valores puramente afetivos?

Nunca maltratei um cão ou um gato, também não gosto de ver um sofrendo. A questão é ter consciência que isso é algo cultural, porque o mesmo sentimento eu não tenho por um camundongo ou uma galinha. Há séculos que pesquisas farmacêuticas são realizadas com roedores, principalmente ratos e camundongos e, ninguém se importa. Já vi matérias em rede nacional sobre tumores que foram provocados nesses bichos em pesquisa com medicamento para câncer. Alguém se importou? Alguém deixou de tomar remédio?

Você já viu uma galinha de quintal sendo morta? Não? Eu já, várias vezes, e vou descrever o processo: Primeiramente ela é imobilizada, amarram a mesma; depois arranca-se as penas da região do pescoço e, finaliza-se o processo passando a faca nesse lugar. É obvio que a galinha sofre, desde o princípio, sobretudo se o golpe não for “certeiro”. Nesse caso ela vai agonizar por alguns instantes. Pergunto: Alguém se importa com isso?

Existe uma hierarquização cultural dos animais na nossa sociedade, de modo que alguns são tratados como intocáveis e, outros, ninguém se importa, porque fomos criados dentro desses valores.

Não estou escrevendo isso para defender maus tratos com cães ou gatos, mas sim para deixar evidente a hipocrisia presente em muitos discursos de pretensos defensores dos animais. É complicado ser um ativista desse tipo e adorar um churrasquinho no final de semana. E por favor, não venha com o argumento de: “Eu como churrasco, mas defendo a execução indolor”. Me poupe, quando você come, nem ao menos procura saber como mataram. Na verdade você não sabe nem de onde veio a carne. Você não se importa, mas é bonito se utilizar desse discurso. Todos nós sabemos que muitos abatedouros utilizam métodos bastante rústicos.

Quer ser um ativista coerente? Então não coma nada de origem animal, nada! Na verdade nem remédio você pode tomar. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A ética corporativista

Fala-se muito que o povo brasileiro é especial. Um povo aconchegante, hospitaleiro, alegre, etc. Sempre achei essa visão totalmente tendenciosa. É uma forma de esconder nossos defeitos e colocar em um pedestal nossas qualidades, como se elas fossem mais importantes.

Não posso falar de “outras sociedades”, porque não convivo, apesar de sempre escutar relatos a respeito. Posso falar da minha, que conheço de perto. Aqui no Brasil o corporativismo é tão grande que praticamente se criou um código de ética corporativista.

Quando se fala em corporativismo, a primeira coisa que nos vêm à cabeça são os políticos, no máximo os médicos. Sempre é algo distante de nós. Por que isso? Porque o ser humano é conveniente e gosta de se colocar em posição de vítima sempre, nunca na posição de vilão. Basta um olhar um pouco mais perspicaz, para notar que esse comportamento está presente em quase todas as esferas sociais. Existe criatura mais corporativista que aluno? Se um aluno entregar o colega que está pescando, será considerado um sujeito escroto³, muito provavelmente será excluído da turma. A mesma coisa acontece em um trabalho em grupo, se o nome de alguém for excluído por não ter contribuído para o trabalho. Mas analisando racionalmente, por que é tão asqueroso esse tipo de coisa? Existem pessoas que se formam na base da cola e do oportunismo (montar nas costas dos colegas), quase nunca estudam, e essas pessoas irão receber o mesmo diploma daqueles que viraram noites estudando. É justo? Mas segundo o código de ética corporativista, é um crime entregar essas pessoas, mesmo se o sujeito for estudante de medicina, que futuramente colocará em risco a vida de pessoas.

Exemplos menores como o que citei acima servem para entender os maiores. Os alunos reclamam que os professores se protegem (e é verdade mesmo) sem olhar para si próprios, os professores fazem a mesma coisa. Nas instituições públicas de ensino isso é mais evidente. Se um professor não cumpre sua carga horária, algum colega irá denunciar? Por que uma pessoa da mesma classe ou categoria não pode “dedurar” ninguém, somente uma pessoa de outra classe/categoria? Qual o sentido dessa norma ética? Citarei um exemplo que ilustra muito bem essa incoerência: Se um determinado professor precisar faltar no dia da prova e colocar um funcionário para fiscalizar, esse irá cumprir o protocolo e fiscalizar de verdade. Mas se esse professor colocar um aluno de outra turma para fiscalizar, esse será pressionado a deixar a “pescaria” rolar e, se dedurar, será rotulado dos piores adjetivos possíveis.

Isso é resultado da nossa cultura egoísta, que tende a enxergar a sociedade em forma de sub-grupos sociais opositores. É como se a pessoa fizesse parte de um bando, e ela luta em prol do mesmo. A norma do bando é se proteger e se beneficiar mutuamente, não importa se é certo, errado, justo ou injusto. Na vida profissional isso é fácil de observar também, cada profissão busca criar barreiras para garantir sua reserva de mercado. “Só economista pode fazer isso; só contador pode fazer isso; só médico pode fazer aquilo”, e por ai vai. É fácil notar que essas normas na maioria das vezes não são buscadas pensando no social ou na coerência, mas sim na própria categoria (bando).

Muitos podem achar que isso é bobagem, mas o corporativismo é um mal social, uma hipocrisia disfarçada de “luta pela classe”. Alimenta-se o bônus de um grupo a qualquer preço, ainda que o preço seja ônus social. Não é raro inclusive observar grupos que detém bons salários, fazendo greve. Os auditores fiscais não tem nenhuma vergonha na cara de fazer greve para aumentar seus “pobres” salários, por que um político teria vergonha de aprovar uma lei que aumenta o seu? O nosso (meu) é sempre pouco, o do outro eu nem quero saber.

Corporativismo = individualismo de grupo, se me permitem transgredir a coerência textual.  

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Pirataria ... acabar ou incorporar?



A pirataria faz parte da vida do cidadão brasileiro tão quanto feijão e futebol, é complicado se desvencilhar dessa prática. Por um lado, piratear seria algo deplorável, afeta diretamente o criador, detentor dos direitos autorais. Por outro lado, as condições práticas acabam estimulando a prática de copiar sem pagar direitos. É um tanto conveniente abraçar de forma convicta algum desses dois posicionamentos. Geralmente quem defende o primeiro são pessoas diretamente prejudicadas com a prática e, quem defende o segundo, são aqueles que usufruem da mesma

Primeiramente, é bom aprofundar e esclarecer algumas coisas a respeito do assunto. Pirataria é qualquer forma de copiar o trabalho autoral de outrem sem recompensar devidamente o autor e o produtor (interventor). Isso vale não apenas para filmes, programas e músicas. O que nem todos sabem é que vale também para livros.

Desde 1998, não é permitido copiar um livro inteiro, apenas pequenos trechos são permitidos. Mas a final, o que seriam das universidades sem a famosa xerox? Se o professor quiser usar um livro que não há na biblioteca, deveríamos comprar? Eu mesmo fiz mestrado graças às cópias incessantes que tirei de diversas obras, pois a universidade era recém implantada e a biblioteca era bastante deficitária. Fiz algo de errado? Ou será que o princípio da legalidade nesse caso deveria ser revisto?

Se a fiscalização apertasse o cerco de forma decisiva e acabasse completamente com a pirataria no Brasil, quais seriam as consequências?

1 – Encarecimento dos computadores, para oferecer o sistema operacional original.

2 – Falência de diversos artistas, que sobrevivem graças à divulgação proporcionada pela pirataria.

3 – Barreira para ingresso de novos artistas no mercado, dependendo de um contrato com gravadora ou de dinheiro para uma produção totalmente independente.

4 – Aumento da dificuldade da prática de pesquisa, com o fim do download de livros e da xerox.

Essas seriam as principais consequências danosas. Mas existiriam consequências positivas também, e a principal seria no cinema, aumentando as receitas das produtoras. Isso estimularia bastante a produção de filmes nacionais. 

Eu acredito que existe como equacionar isso, e a solução seria regularizar a “pirataria”. No caso da música, as gravadoras deveriam cair de vez na real, oferecendo a música para download em seus próprios sites e, continuar com seus lucros através da produção do artista. Hoje as gravadoras ganham muito mais produzindo por completo o artista, ganhando em cima dos shows. Caso isso acontecesse, os sites piratas quebrariam, pois baixar no site da gravadora seria muito mais seguro e eficiente (qualidade sonora garantida). De quebra, essas mesmas gravadoras poderiam colocar anunciantes no site, ganhando em cima desses downloads. Nesse caso, o CD continuaria existindo, mas seria uma espécie de produto de luxo, coisa de fã. 

No caso dos livros, acredito que o mercado se auto regula. A xerox tem uma qualidade infinitamente menor que o livro, isso faz com que a venda de uma quantidade razoável de exemplares seja sempre mantida sem maiores ameaças. 

No caso do cinema, considero mais complicado. Não há nenhum benefício aparente na pirataria de filmes. Talvez seja o único ramo de atividade que o governo deva combater a pirataria. Produzir filme de alto orçamento de forma independente é uma aventura muito difícil, com grande risco. O cinema ainda depende dos grandes financiadores e, estes se veem ameaçados por conta da pirataria. 

Em relação aos programas e sistemas operacionais, acredito que a solução seria também a regulamentação. Existem certos programas que se fossem pagos quase ninguém iria adquirir. O fim da “gratuidade” geraria uma espécie de monopolização também. Alguém compraria um outro programa para exibir vídeos, sendo que em seu sistema operacional já existe um? Ex: Alguém compraria o Real Player? A solução seria parecida com o caso da música, a disponibilização do download no site da empresa que produziu. A empresa ganharia com anúncios no site também. Especificamente em relação aos sistemas operacionais, creio que não há outra saída a não ser os acordos que já existem da Windows com as fabricantes, o que possibilita vender computadores já com o programa instalado.

Isso é tudo, acredito que urge cada vez mais a necessidade da pirataria ser incorporada pelo sistema, até mesmo para evitar o ganho ilegal de atravessadores oportunistas. Quem gostou da discussão compartilha.

domingo, 21 de julho de 2013

Dissecando os padrões de beleza

Tenho observado que as feministas entraram numa esquizofrenia aguda de querer extinguir qualquer padrão de beleza. Minha ficha caiu nesse aspecto depois da polêmica foto da menina que circulou no facebook, em que as pessoas ridicularizaram a coitada por ter uma sobrancelha feia. Sim, a sobrancelha era feia mesmo. Isso não induz ao raciocínio (nas mentes doentias sim) de que eu concordo com o que fizeram com ela. Foi criminosa a atitude de expor ao ridículo uma menina de 11 anos. Mas não podemos usar esse caso para dizer que trata-se de machismo. Chamar isso de machismo é o mesmo que ver um sujeito roubando um relógio e chamá-lo de assassino.

Só existe o bonito porque existe o feio, portanto, só podemos “classificar” algo como bonito se tivermos em nossa mente uma referência do que é feio. Os padrões de beleza não são resultado de uma conspiração midiática promovida por uma elite europeia, aceite isso no seu coração irmão(ã). É surreal achar que um grupo de pessoas um belo dia se reuniu e decidiu qual padrão de beleza seria colocado na mídia para fins de dominação cultural.

Não gosto de fazer isso nessa página, mas nesse caso não tem jeito, vou ter que usar a ciência. Os padrões de beleza são o resultado da exteriorização de impulsos individuais, que atuam de forma retroativa com a absorção das estruturas culturais externas ao indivíduo. Ou seja, é um movimento de ida e volta, no qual os indivíduos influenciam o meio, ao tempo em que são influenciados por ele. O que quero dizer com toda essa “punhetagem”? Quero dizer que o indivíduo é constituído e constituinte da realidade, é ativo e passivo ao mesmo tempo. Portanto, a ideia de conspiração não cabe.

Os padrões de beleza são influenciados pela mídia e por nossa cultura (incluindo aspectos perversos, como racismo), mas são também resultado das pulsões individuais de cada um. Nesse sentido, é arbitrário afirmar: “Você gosta de mulheres assim porque a mídia lhe impôs isso”. Se fosse tão simples, não existiria um nicho de mercado na indústria pornográfica explorando a imagem da mulher gorda. A indústria percebeu que o número de homens que gostam de gordinhas é relevante e, está atendendo a esse público. Mas peraí... nosso gosto não era produto da mídia? Fica a provocação ... até que ponto o padrão “mulher magra” foi imposto?

O padrão de beleza é resultado da síntese das preferências mais comuns da população, que ao se configurarem como tal, passam a atuar de forma externa aos indivíduos (de fora para dentro). Portanto, o padrão de beleza pode ser flexibilizado, mas jamais extinto, como querem as feministas. A cultura não nasce do vento e se impõe sobre os indivíduos, ela nasce dos indivíduos e se impõe sobre eles próprios. Ainda que um dia se coloque uma gordinha como protagonista de Malhação sem haver perda de audiência, isso não representa extinção, mas sim mudança dos padrões. Ainda que a gordinha esteja lá, não será qualquer gordinha. Haverá um padrão de gordinha bonita, e esse padrão surgirá “naturalmente”. Ou seja, continuará havendo aquela parcela de pessoas fora dos padrões de beleza.

É claro que as relações de poder são diferenciadas. Longe de mim acreditar que o poder de influência é igualitário para todos os agentes sociais. Mas assim como as grandes gravadoras absorvem as pulsões sociais independentes (olha o caso do punk rock), a grande mídia também faz essa absorção em relação aos padrões de beleza. Não é por acaso que o padrão de mulher bonita no Brasil tem influência do fenótipo feminino africano. Ou vocês acham que mulher de ancas largas é uma característica da européia? 

Vamos acabar de vez com esse ideal lunático de exterminar com os padrões, como se isso fosse possível e, como se isso fosse importante. A mulherada adora homens altos, e isso é um padrão de beleza. Querer acabar com isso é querer suprimir a própria natureza humana.


OBS: A gordinha da foto do texto é uma modelo, praticamente uma militante da democratização estética no mundo da moda. Mas ela não é “qualquer” gordinha ... correto ... hehehe?

sábado, 22 de junho de 2013

Um outro olhar ...

Antes de mais nada, deixo claro que sou a favor das manifestações, elas representam a atitude de um povo que almeja mudanças. Fui ao protesto e sou a favor da redução das tarifas de transporte público. Vou além inclusive, defendo que as prefeituras parem de terceirizar o serviço a fim de reduzir ainda mais as tarifas sem precisar de cortes em investimentos, já que o custo da terceirização é alto.

No entanto, tenho notado que algumas pessoas realmente levam a sério a onda da tarifa zero em grandes metrópoles, algo que considero no mínimo controverso, sobretudo para os mais pobres. Acredito que existe muita politicagem na definição dos preços das passagens, até mesmo porque trata-se de um cartel regido pelo setor público, portanto, as margens de lucro são negociadas politicamente. Mas uma tarifa zero representaria um “rombo” abissal no orçamento, e isso precisaria ser compensado com aumento dos impostos ou cortes nas despesas. Talvez você ainda acredite que isso seja necessário, por acreditar que o transporte gratuito é imprescindível. Não sei se o benefício de um transporte gratuito compensaria o esforço fiscal, mas sei que inevitavelmente isso geraria certo grau de transferência de renda dos mais pobres para os empresários.

Quem mais segue à risca o pagamento dos direitos trabalhistas em média são as grandes empresas. É bem possível que a budega da esquina não ofereça vale-transporte aos empregados, mas as empresas maiores com certeza sim. Boa parte do esforço orçamentário para zerar a tarifa iria para as mãos dos empresários, reduzindo os custos com contratação de mão de obra. Isso por outro lado impulsionaria a criação de empregos (via desoneração do custo do trabalhados), mas a magnitude desse efeito depende de diversas variáveis, e talvez não compensaria. Nos setores oligopolizados a tarifa zero sem sombra de dúvidas ajudaria a encher o bolso dos empresários.

Além desse processo, uma tarifa zero iria requerer uma expansão do sistema de transporte, já que mais pessoas iriam se utilizar do mesmo. O custo com o serviço sem sobra de dúvidas seria muito maior do que é atualmente.

Talvez o mais urgente não seja tarifa zero, mas sim tarifa zero para quem não pode pagar. Existem projetos de lei tramitando em algumas regiões do país no sentido da prefeitura dar vales-transportes para recém demitidos de seus empregos, algo que considero bastante importante.


A discussão sempre deve ter o maior grau possível de racionalidade, para garantir que as intervenções representem avanços de fato. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Como seria um BBB com "intelectuais"?

O BBB lançou uma versão cult, somente com universitários, estudantes de 6 cursos. Com sede de polêmica, a “plin plin” chamou estudantes com boas notas dos cursos de economia, sociologia, história, medicina, direito e engenharia civil. Abaixo vão os relatos dos fatos que ocorreram na primeira semana.

1º Dia: O futuro engenheiro perguntou se a estudante de história gostaria de dormir com ele. A mulher ficou enfurecida e o chamou de estuprador, citou Simone de Beauvoir, Betty Friedan e Marx, dando um sermão no rapaz. Ele a chamou de louca e ela disse que o mesmo era manipulado pela Globo. Boninho imediatamente retirou a estudante da casa alegando que a mesma tinha problemas mentais, apresentando um laudo de um psicólogo contratado pela emissora. 
Enquanto isso o sociólogo já puxava uma discussão sobre Foucault e suas teorias sobre doença mental. A estudante de medicina entrou na discussão, que durou até 3:00.

2º Dia: O cara de civil, ainda irritado, foi abrir uma lata de leite condensado com ignorância e cortou o dedo. A mulher de medicina imediatamente pediu para todos se afastarem; estancou o sangue; fez curativo; mediu a pressão; batimentos cardíacos e, pediu para que ele ficasse 4 dias de repouso sob supervisão dela.

3º Dia: A futura médica começa a andar de jaleco e estetoscópio pela casa, quando dá 21:00 o sociólogo se irrita e diz que aquilo é fruto da cultura burguesa, cita Foucault e dá início a uma discussão generalizada. 
O estudante de direito diz que não existe uma lei que a impeça de andar de jaleco, o sociólogo cita a obra “A questão judaica” de Marx e o economista diz que Marx não serve pra nada. A discussão fica tensa e dura até 5:00 da manhã.

4º Dia: O aspirante a sociólogo escuta uma conversa entre o economista e a futura médica, na qual o primeiro diz que sociólogo só serve para encher o saco de economista. Ele fica enfurecido e diz que economista não compreende a realidade, então outra discussão sem fim começa.

5º A estudante de história aparece na Band dizendo que foi vítima de discriminação por ser mulher e revolucionária. A repórter pergunta o que ela estava fazendo no BBB sendo uma revolucionária, ela afirma que a intenção era disseminar sua ideologia através da TV aberta. 
Enquanto isso, na casa, a discussão do dia anterior está em curso. As referências das citações são: Foucault, Marx, Weber, Friedman e Keynes. 

6º Dia: O estudante de civil recebe alta e já pode levantar da cama. Ele está mais tranquilo e anda pela casa falando mal de como ela foi construída. O sociólogo diz que os padrões de engenharia são produto da sociedade e, cita Foucault. Nesse momento o aspirante a economista entra na conversa e diz que se a casa tivesse sido construída por um economista não teria erros.

7º O estudante de engenharia passa por exames de avaliação com a aspirante a médica. A estudante de história participa do Roda Viva para contar seu drama pessoal. O pessoal da casa assiste pela internet. O estudante de economia vai dormir porque a entrevista não é com um economista. O de sociologia cita Foucault enquanto assiste.

OBS: Antes que um pseudo-intelectual venha com seu mimimi de bolso, aviso de antemão: Esse texto é baseado em estereótipos, não se dê ao trabalho de dizer coisas do tipo: “Nem todos são assim!” ok?

terça-feira, 9 de abril de 2013

Ele é realmente necessário?



Salário mínimo deve existir? Quando surge uma pergunta desse tipo, a resposta mais obvia é sim, sem dúvida. Ser contra o salário mínimo em nossa sociedade é encarado como uma aberração tal qual ser à favor da fome. É um pecado sem perdão, coisa de reacionário escroto enviado pelo capeta.

No entanto, por mais irônico que possa parecer, existem argumentos sólidos no sentido de que o salário mínimo pode contribuir para o crescimento da pobreza extrema. Falando em linguagem macroeconômica, o piso salarial pode estar acima do salário de equilíbrio da economia de determinados setores, provocando assim um “peso morto”, portando, desemprego. Simplificando: um empresário que poderia contratar 2 funcionários pagando R$ 450,00, com salário mínimo de R$ 678,00 ele só contratará um. Em outros casos, um determinado empreendimento pode se tornar inviável por conta do salário mínimo, pois o mesmo estabelece um piso de custos com mão de obra. Nesses casos, empregos deixarão de serem gerados.

Recentemente o governo “apertou o cinto” de vez na regulamentação do salário das(os) empregadas(os) domésticas(os), garantindo a elas(es) todos os benefícios de um trabalhador comum. O fato ressuscitou uma discussão um tanto esquecida: o salário mínimo é de fato um benefícios aos trabalhadores? Existem rumores de que quanto mais o governo aperta o cerco para se pagar o mínimo às domésticas, menos profissionais dessa função serão (estão sendo) contratados.

Como podemos ver, a discussão não é tão simples e trivial quanto parece. Sob determinado ponto de vista o salário mínimo representa crescimento da pobreza. 

Particularmente sou a favor do piso salarial, pois a economia é dominada por oligopólios, que podem se aproveitar de um salário de equilíbrio baixo (resultante de grande massa de desempregados) para enriquecer às custas dessa mão de obra barata. Nesses casos (que representam a maioria) existe uma margem de manobra grande por parte dessas empresas, de modo que um piso salarial não seria convertido em menores contratações de forma relevante. Ou seja, os oligopolistas não contratariam menos por conta do piso, ou o ganho salarial não seria anulado proporcionalmente pelas perdas em contratações.

Mas essa é só minha opinião, o debate está aberto!