
Preguiça Baiana ... estereótipo que muita gente encara como simples brincadeira, tipo gaucho viado, mas no caso da piada onde a vítima é o baiano a brincadeira está carregada de outros sentidos por trás, sentidos xenofóbicos e pejorativos.
A piada do baiano preguiçoso carrega acima de tudo o sentido de atraso econômico, no sentido de que o sudeste e sul são desenvolvidos industrialmente, são modernos, e o nordeste é atrasado, atribuindo ao sulista o adjetivo de povo trabalhador, e ao nordestino o adjetivo de preguiçoso.
O problema não está na piada em si, nem na atribuição do adjetivo, mas sim na questão valorativa por trás do adjetivo. Existe uma perspectiva de inferioridade cultural quando se faz esse tipo de atribuição (ainda que implícita), que está atrelada à perspectiva de inferioridade econômica.
Para rebater esse tipo de discriminação os baianos costumam tentar provar que o baiano não é preguiçoso, e ai mostram números, fatos, etc, etc. Existe até uma dissertação que faz esse estudo, que chega à constatação de que o baiano trabalha mais que o povo do sudeste. Mas eu não vou entrar nesse mérito, prefiro tocar na raiz da questão.
É engraçado como o adjetivo “trabalhador” está carregado de um sentido valorativo positivo, e o contrário um sentido negativo. As pessoas esquecem que o trabalho a que elas se referem não é qualquer trabalho, não é a servidão do feudalismo, nem o trabalho de subsistência dos indígenas, mas sim o trabalho das relações capitalistas, trabalho da burocracia capitalista, que estabelece relação de patrão e empregado, com vistas à acumulação de capital. Nesse sentido, esse trabalho que realizamos não é natural do ser humano, é um trabalho que fomos condicionados socialmente e historicamente a fazer. Na época da revolução industrial a jornada de trabalho para as mulheres eram de 14 a 16 horas na Inglaterra, e de 10 a 12 para crianças. Hoje isso poderia ser considerado um absurdo, mas na época era normal, com certeza seu patrão iria rir de sua cara se você dissesse a ele que o correto seria 8 horas por dia. O ser humano tem uma tremenda capacidade de se adaptar a contextos adversos, a prova disso é que tem gente comendo lixo e sobrevivendo, ou seja, estar adaptado a um contexto não significa que aquilo é natural. Toda forma de trabalho supõe relações sociais prévias que o condicionaram.
Onde quis chegar com tudo isso? Simplesmente ao fato de que estar mais disposto ao trabalho da burocracia é um condicionamento social, portanto não pode (ou não deveria) carregar nenhum sentido de valor positivo nem negativo. O estado capitalista é muito mais presente no sul e sudeste devido ao processo de formação econômica do país, e isso obviamente condiciona a uma consolidação maior da cultura capitalista nessas regiões, que por sua vez condiciona a uma maior adaptação da sociedade ao trabalho da burocracia capitalista.
O termo preguiça baiana, dentre outras atribuições xenofóbicas, que consiste em supor que a Bahia e nordeste são menos evoluídos, carrega o caráter de evolução cultural, o que remete ao evolucionismo antropológico. É bom lembrar que a teoria evolucionista na antropologia (de teóricos como Morgan e Freezer) há mais de um século foi superada, portanto evolução cultural ou social é um termo retrógrado, atrasado, que cheira a mofo. Então quem é atrasado aqui caro sulista xenofóbico?
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